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Clonagem

Neste tempo de pós-Páscoa celebramos a vida e sua vitória sobre o mal e a morte através da ressurreição de Jesus Cristo. Esta boa-nova está no fundamento da fé cristã e também no início da Igreja. Pois falando dela, as testemunhas partiram de Jerusalém para a Galiléia e até aos confins da terra. Esta mensagem da ressurreição, da vida nova, poderosa, incorruptível e eterna, vem ao encontro do anseio mais forte e profundo de tudo que vive: banir a morte e aperfeiçoar, salvar, prolongar, reproduzir, perpetuar a vida.

Nesse contexto desejo abordar um fato que nas últimas semanas causou grande sensação: a reprodução, a partir da manipulação de células, de uma ovelha que se tornou conhecida como Dolly. Aliás, foi o Conselho Diretor que me incumbiu de expedir uma palavra orientadora a esse respeito. Pois se trata de um fato em cuja relação estão sendo levantadas muitas perguntas. Elas chegam a nós também como Igreja, como obreiros/as e líderes, com o desafio de assumirmos posição e dar testemunho. Evidentemente estamos diante de um número enorme de possibilidades científicas que implicam dilemas ético-religiosos. Neste estágio dos acontecimentos há mais perguntas e temores do que respostas. A humanidade se vê desafiada a definir limites à ciência aceitáveis do ponto de vista ético. Precisamos de debates e estudos interdisciplinares entre cientistas, políticos, filósofos e teólogos.

O êxito de reprodução por clonagem conseguido pelo Dr. Ian Wilmut, do Instituto Roslin, ligado à Universidade de Edimburgo, Inglaterra, com investimento da firma PPL Therapeutics, causou enorme impacto. Concomitantemente se ficou sabendo que experimentos semelhantes já vêm sendo feitos há dezenas de anos, com plantas e animais. Só que agora o método descoberto por Wilmut para a reprodução assexual de mamíferos, por fusão de células, parece ter rompido uma barreira. Pois abre, para milhares de cientistas e laboratórios em todo o mundo, a possibilidade de fazer o mesmo, inclusive tentá-lo com a espécie humana. E aí se pergunta - em que escala - com que objetivos e limites - com que resultados...?

Como seres humanos estamos inseridos nesta cadeia da vida. "Porque o que sucede aos filhos dos homens, sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida..." (Eclesiastes 3.19). A reprodução semi-artificial de animais mexe com o mistério da vida, causa espanto, admiração e mesmo comentários humorísticos. No fim das contas, vamos ficar entregues às mãos de pessoas que detêm o poder de pagar, de escolher quem poderá ser clonado ou não...? Estamos escorregando da mão de Deus para os laboratórios...? Será que o cientista, recebendo encomenda, vai pensar em aspectos morais e transcendentais? Afinal, a pesquisa genética, a criação de plantas e animais transgênicos, a seleção e modificação de espécies (p. ex. dos porcos de modo a produzirem órgãos compatíveis com os humanos, transplantáveis), é um negócio multimilionário já em andamento.

Vários governos se apressaram em proibir a clonagem de seres humanos e não concederão recursos para esta finalidade. Com tais restrições a ciência dificilmente se deixará barrar, também porque os governos não são unânimes. A situação parece semelhante àquela do tempo quando os astrônomos divulgaram o sistema heliocêntrico e foram condenados. Mas sem dúvida essas primeiras reações, proibindo o avanço até a clonagem humana, têm ao menos um efeito retardador. Constituem um alerta para ir devagar, para ganhar tempo para a reflexão e a elaboração ética desses avanços da ciência; para criar mecanismos de orientação e controle e legislação correspondente.

No Brasil passou a vigorar a nova lei de patentes de Nº 9279/96. Ela proíbe o patenteamento de seres vivos, exceto de microorganismos, geneticamente modificados. No plano federal é responsável por essa área a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, a CTNBio, vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Ela foi nomeada em junho de 1995 pelo Presidente da República com o fim de "implementar a Lei de Biossegurança (Lei Nº 8974/95) relativa à construção, cultivo, manipulação, transporte, comercialização, consumo, liberação e descarte de organismos geneticamente modificados.(...) Compete à CTNBio propor a Política Nacional de Biossegurança, acompanhar o desenvolvimento técnico-científico na biossegurança e propor o Código de Ética de Manipulações Genéticas." (José Israel Vargas, em comunicado do Ministério da Ciência e Tecnologia, sobre "A clonagem de mamíferos, a biossegurança e a ética".)

Sente-se em toda parte a necessidade de um debate político mais amplo. Nesse processo de reflexão temos que participar. Não podemos esperar soluções apenas "de cima". Importa que o debate, a participação e a conscientização aconteçam também em nível local, p. ex. convidando expoentes da sociedade para uma noitada, uma mesa-redonda aberta para perguntas e respostas. É preciso adquirir maior conhecimento de causa. Posições extremadas não resolvem. A tecnologia já não é passível de patrulhamento. O gênio já saiu da garrafa. A ciência gerou impactos sobre a vida que carecem de elaboração teológica e política em nível nacional e internacional. A coletividade precisa de tempo para digerir as novidades e para políticas que impeçam abusos, sem bloquear o progresso científico. Certamente ficarão abertas questões a médio e longo prazo. A técnica da clonagem pode ser boa para algumas finalidades, por exemplo, quem sabe, para animais ameaçados de extinção. Haverá "acomodações" éticas de acordo com as necessidades e premências. Mas não se pode simplesmente seguir no rumo da ciência sem ter controles de direcionamento responsável. Pois ao ser humano não pode ser permitido fazer tudo de que é capaz. Sempre que o homem esquece seus limites e cede à tentação de querer ser igual a Deus, ele desrespeita o próximo e acontecem grandes males.

A clonagem reacende esperanças de perpetuação da vida. Nosso credo diz que a vida eterna se recebe através da fé no Senhor ressurreto, que tem poder para nos dar nova vida e de nos ressuscitar da morte para a vida. Esta vida é de outra qualidade, vida com alma. Ela é mais que a soma das funções e experiências de vida, das influências específicas do ambiente, da educação, da nutrição, do carinho, dos castigos, do esporte. O espírito, a alma, a individualidade nunca serão iguais. A história de uma vida individual não poderá ser copiada. Segundo a antropologia que nos é familiar, a pessoa humana normal precisa de pai e mãe. Ser concebido a partir do abraço é algo diferente do que ter origem num sofisticado processo de laboratório. Um clone nunca será a continuidade da pessoa que lhe deu origem.

Sempre é válido querer aperfeiçoar técnicas de pesquisa e medicina para o prolongamento desta vida, dom de Deus. A vida é merecedora de respeito e dignidade. Sua valorização, porém, não pode ser absoluta. Existe na Bíblia uma palavra que diz "Tua graça é melhor que a vida" (Salmo 63.3). Ela nos lembra que o melhor da vida não é o mero funcionamento dos membros, dos órgãos e da digestão, mas o amparo pelo doador da vida, a presença da graca do Deus criador, salvador e santificador da vida. Ele nos concede talentos e dons, nos abençoa com fé, esperança e amor, ingredientes que tornam a vida preciosa e digna de ser vivida. Cremos na presença deste Deus conosco em Jesus Cristo crucificado e ressurreto por nós, "para libertar os que a vida toda foram escravos por causa do medo da morte" (Hebreus 2.15). Pela fé nele, pelo estar-em-Cristo, pelo exercício do discipulado, nos é dado experimentar o sabor da vida plena que Deus tem em vista para suas criaturas. O sonho da imortalidade via reprodução por cópias, ou a crença espírita da reencarnação, não são caminhos bíblicos. "Cada pessoa tem de morrer uma vez só e depois ser julgada por Deus" (Hebreus 9.27). A esta vida são colocadas restrições e limites, para mantermos viva a esperança pela ressurreição. Temos direito ao "partir e estar com Cristo" (Fil 1.23), ao descanso, ao cumprimento da promessa da vida na glória com Deus. Esta janela aberta para a eternidade, que transcende a vida imanente, é essencial para a pessoa humana.

Com isso não vamos menosprezar esta vida e projetar seu aperfeiçoamento para o além. A fé não lida com coisas virtuais e transcendentais, mas é força presente provinda de Deus para já iniciar a renovação da vida e transformá-la segundo Sua vontade. Sob este enfoque se estabelecem prioridades em cuja escala a clonagem não tem a importância que lhe está sendo atribuída. Mesmo conseguindo reproduzir um ser vivo, o homem não é o criador da vida. Consegue no máximo lançar mão da rica matéria-prima genética existente e desencadear um processo do qual resulta um ser com o mesmo código genético. Mas a característica da criação de Deus é a diversidade da vida. Deus nos faz irrepetíveis. Nosso Deus-Criador não se contenta em fazer xerox, mas cria segundo a riqueza de Sua imagem e dá a cada novo ser sua própria individualidade, que significa talento único a ser usado com responsabilidade. A tendência humana vai no sentido da uniformização, da massificação, da destruição da biodiversidade e da indiferenciação dos sujeitos. Por acaso, não estamos expostos ao bitolamento cultural pela indústria da informação, que nos impõe seus padrões no trabalho, no consumo e no lazer? Sob esse aspecto já temos "ove-lhas" iguais em excesso, ou seja, pessoas que se conformam com injustiça, miséria e violência como se fossem clonadas sem o núcleo de sua consciência.

Será que em meio à miséria existente hoje em dia há razões para clonar seres humanos? Mais importante é ajudar para que os seres existentes possam participar da nova vida, da vida plena e digna que Jesus Cristo veio trazer. Esta importa testemunhar por palavra, ação e participação responsável em iniciativas que possam melhorar a qualidade de vida dos que mais precisam ter acesso ao pão, à saúde, educação e moradia digna. Ter conhecimento do evangelho de Jesus Cristo faz parte dos direitos humanos fundamentais (Emilio Castro) e constitui tarefa missionária e diaconal de grande urgência. O desafio maior, portanto, é ajudar a viver dignamente aos que estão morrendo. E para isso a melhor orientação é o mandamento máximo da cristandade: Temer e amar a Deus e confiar nele acima de todas as coisas - e amar ao próximo como a si mesmo.

Igreja Evangélica de Confissao Luterana no Brasil

 

 

Documentos

Baptism, Eucharist and Ministry

Concordato de Convenio Lutheran - Episcopal Proposal

Reconocimiento Mutuo del Bautismo Cristiano por las Iglesias Cristianas de Chile

El Ministerio Episcopal en la Apostolicidad de la Iglesia

Consulta Luterana Latinoamericana sobre Liturgia

El uso de los medios de la Gracia - Una Declaración acerca de la Práctica de Palabra y Sacramento

Congreso Judío Latinoamericano - DECLARACION DE LIMA

Carta Pastoral Ecumênica frente a la situación social y política del país

Textos relacionados a la Iglesia Evagelica de Confesion Luterana en Brasil - IECLB


 
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